No subsolo da Igreja Nossa Senhora da Glória, em Juiz de Fora, uma tradição discreta atravessa mais de 130 anos. Longe das grandes fábricas e dos centros comerciais, religiosos da Congregação Redentorista preservam um modo de produção artesanal que nasceu no fim do século XIX e que hoje ganha destaque fora do país.

A Weissbier produzida pela Cervejaria Hofbauer conquistou medalha de ouro no Brazilian International Beer Awards, considerado o maior concurso de cervejas independentes da América Latina. O rótulo recebeu nota 97 em uma avaliação que envolveu aroma, sabor, equilíbrio e conjunto sensorial. Mais de mil inscrições participaram da disputa, com especialistas do Brasil e do exterior.
O reconhecimento marca um momento especial para a Hofbauer. Foi o quarto prêmio de 2025, justamente no ano em que a cervejaria passou a participar oficialmente de competições.
Origem europeia e continuidade em Juiz de Fora
A história da Hofbauer remonta ao período em que missionários redentoristas chegaram ao Brasil trazendo a tradição monástica de produção de cerveja, inspirada em práticas comuns em conventos da Holanda, da Áustria e de outras regiões europeias. Em Juiz de Fora, a fabricação foi incorporada à rotina religiosa e transmitida entre gerações.
O processo segue marcado por uma lógica artesanal. A produção é limitada, com lotes de aproximadamente 350 litros, fabricados apenas quatro vezes ao ano. O maquinário preservado impressiona: equipamentos importados da Holanda em 1907 continuam sendo utilizados, operados de maneira manual.
A atividade chegou a ser interrompida por cerca de 15 anos. A retomada aconteceu em 2009, sob coordenação do padre Flávio Campos. Ele reorganizou o espaço, registrou as etapas e ajudou a apresentar a produção ao público. O religioso morreu em 2020, aos 44 anos, mas deixou um legado que garantiu a continuidade do trabalho. Foi nesse período que a cerveja do convento passou a ser conhecida fora do ambiente religioso, incluindo a participação no festival Forest Beer, em Juiz de Fora, em 2019.
Reconhecimento técnico e preservação cultural
Na avaliação do concurso, a Weissbier se destacou por características consideradas tradicionais do estilo. A bebida apresenta coloração amarelo-claro, aparência naturalmente turva e teor alcoólico de 5,3 por cento. O corpo é leve, o amargor é baixo e o final é discretamente cítrico, combinação que ajudou na alta pontuação.
Para os responsáveis pela produção, o objetivo nunca foi competir com indústrias ou ampliar de forma ilimitada a fabricação. A prioridade é manter a fidelidade às receitas históricas e à técnica transmitida entre os religiosos, aliando memória, cultura e conhecimento técnico.
Parte da renda obtida com a produção é destinada a projetos sociais da paróquia, o que reforça o caráter comunitário da iniciativa. A Congregação Redentorista, fundada na Itália em 1732, mantém essa tradição como elemento de identidade. Em Juiz de Fora, ela une fé, trabalho artesanal, resgate histórico e reconhecimento contemporâneo.
Hoje, a Hofbauer produz sete estilos diferentes de cervejas artesanais. O portfólio inclui rótulos como Pilsen, Belgian Blond, Belgian Pale Ale, Belgian Dubbel e outras versões que seguem padrões clássicos, sempre com produção limitada e cuidado técnico.
Mais do que uma curiosidade, a trajetória da Hofbauer se transformou em um exemplo raro no país. É a permanência de um ofício antigo, mantido no porão de uma igreja, atravessando gerações e alcançando reconhecimento em eventos especializados sem abrir mão de suas origens.