A cidade de Ouro Preto, na região central de Minas Gerais, mantém uma tradição que atravessa séculos durante a Semana Santa. A confecção dos tapetes de serragem, realizada desde 1733, volta a ocupar as ruas históricas com imagens religiosas preparadas para a Procissão da Ressurreição.
O percurso dos tapetes tem cerca de dois quilômetros e liga a Igreja de Nossa Senhora da Conceição de Antônio Dias à Matriz de Nossa Senhora do Pilar.
A montagem começa na noite do sábado de Aleluia, por volta das 21h, e segue durante a madrugada. Moradores e turistas participam da confecção, que antecede a procissão realizada no domingo de Páscoa.
Neste ano, a expectativa é utilizar cerca de 15 toneladas de serragem colorida. Também são empregados materiais como cal, farinha de trigo, pó de café e flores para compor os desenhos ao longo do trajeto.
Segundo o secretário municipal de Cultura e Turismo, Flávio Malta, a prefeitura atua na organização da estrutura necessária para a realização da atividade.
“A prefeitura é responsável por toda a logística, desde a obtenção e coloração da serragem até sua distribuição nos pontos estratégicos, além da organização da cerimônia e da limpeza do tapete após a passagem. Assim, essa tradição permanece como uma parte significativa e bela da cultura local”, afirmou.
A tradição também se repete no feriado de Corpus Christi, reforçando sua presença no calendário religioso do município.
Participação coletiva e transmissão cultural

A produção dos tapetes envolve diferentes gerações e é aberta à participação do público. A prática é transmitida de forma contínua entre moradores, mantendo viva a técnica e os significados associados à tradição.
A coordenadora do Núcleo de Arte e Ofícios da Fundação de Arte de Ouro Preto, Rachel Falcão, participa da atividade há 18 anos e destaca o caráter coletivo da produção.
“Sendo artista, quando cheguei à cidade essa foi uma manifestação cultural que me encantou logo de cara. Era uma possibilidade de ocupação artística das ruas para servir de suporte a outra manifestação cultural e religiosa”, disse.
Ela afirma que qualquer pessoa pode participar da criação dos tapetes, utilizando diferentes técnicas e materiais.
Entre as formas de execução estão o uso de moldes de madeira, ferro ou papelão, além de desenhos feitos diretamente no chão com giz ou pedra-sabão. Também é possível utilizar moldes ampliados em papel ou guiar os desenhos com barbante.
Rachel também atua na mobilização de alunos e professores para integrar a atividade, incluindo a criação de desenhos que posteriormente são reproduzidos nas ruas.
Origem da tradição
A prática dos tapetes de serragem em Ouro Preto tem origem no período colonial. Em 1733, durante o chamado triunfo eucarístico, as ruas da então Vila Rica foram ornamentadas com flores, folhas e tecidos em celebração religiosa.
Com o tempo, a serragem colorida passou a substituir os materiais originais, consolidando a tradição que segue sendo realizada anualmente.
Atualmente, a confecção dos tapetes integra o conjunto de manifestações culturais e religiosas da cidade, sendo considerada um patrimônio imaterial preservado ao longo das gerações.



















