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Mutirões no 2º Semestre 315 anos

Mariana entre o passado colonial e as marcas da lama do Rio Doce

Mariana não é apenas uma cidade histórica de Minas Gerais. É um dos territórios onde o Brasil começou a se organizar como sociedade colonial no interior. Foi ali que o ouro deixou de ser apenas promessa e passou a sustentar estruturas políticas, religiosas e econômicas permanentes. Ao longo do século XVIII, a cidade concentrou poder, criou instituições e moldou práticas que influenciariam toda a região mineradora. Séculos depois, tornou-se também o epicentro de um dos eventos mais marcantes da história contemporânea brasileira: o rompimento da barragem de Fundão, em 2015, considerado o maior desastre ambiental do país.

A trajetória de Mariana é, portanto, marcada por contrastes. De um lado, o protagonismo histórico na formação de Minas Gerais. De outro, a dependência econômica da mineração e as consequências de um modelo que, ao longo do tempo, mostrou suas fragilidades. Entre esses dois polos, a cidade segue tentando reorganizar seu presente.

A origem no ouro e a formação do primeiro núcleo urbano de Minas

A fundação de Mariana remonta ao dia 16 de julho de 1696, quando bandeirantes paulistas chegaram à região e identificaram ouro em abundância nos cursos d’água. O local recebeu o nome de arraial de Nossa Senhora do Carmo e rapidamente se transformou em um dos principais polos da mineração na colônia portuguesa.

O crescimento populacional foi acelerado. A descoberta de ouro atraiu milhares de pessoas, consolidando o arraial como centro econômico emergente. Em 1711, foi elevado à categoria de vila, tornando-se a primeira de Minas Gerais. Pouco depois, em 1712, assumiu o papel de sede administrativa da capitania, configurando-se como a primeira capital da região.

Esse status não duraria muito. Em 1720, após a Revolta de Filipe dos Santos, a Coroa portuguesa decidiu transferir a capital para Vila Rica, atual Ouro Preto, buscando maior controle sobre a exploração aurífera. Ainda assim, Mariana manteve relevância política e simbólica.

Em 1745, foi elevada à condição de cidade por ordem de Dom João V, recebendo o nome de Mariana em homenagem à rainha Maria Ana de Áustria. Esse reconhecimento teve peso institucional significativo. Foi a única cidade criada em Minas Gerais durante o período colonial.

No mesmo ano, a criação da Diocese de Mariana consolidou sua importância religiosa. A cidade passou a sediar o primeiro bispado do estado, reorganizando a estrutura eclesiástica regional. O primeiro bispo, Dom Frei Manuel da Cruz, percorreu milhares de quilômetros até assumir o cargo, em uma jornada que durou mais de um ano.

A fundação do Seminário de Mariana, em 1750, reforçou esse papel. A instituição formou centenas de religiosos e contribuiu para a expansão da Igreja Católica no interior do Brasil. Esse conjunto de fatores consolidou o apelido de Cidade dos Bispos.

O papel político e a presença na Inconfidência Mineira

Ao longo do século XVIII, Mariana também esteve inserida nas tensões políticas da colônia. A exploração do ouro era altamente controlada pela Coroa portuguesa, que impunha tributos pesados. Entre eles, a derrama, mecanismo de cobrança compulsória quando a produção não atingia a meta anual de 100 arrobas, cerca de 1.500 quilos.

Esse contexto alimentou a insatisfação de parte da elite local e contribuiu para a articulação da Inconfidência Mineira. O poeta Cláudio Manuel da Costa, nascido em Mariana, foi um dos envolvidos no movimento. A participação de membros do clero local também demonstra a relevância política da cidade naquele período.

Com o esgotamento das jazidas de ouro a partir da segunda metade do século XVIII, Mariana entrou em processo de transformação econômica. A mineração perdeu protagonismo e deu lugar à agricultura, ao comércio e, posteriormente, à produção cafeeira.

A transição para a mineração moderna e a formação econômica contemporânea

No século XX, Mariana passou por uma nova inflexão econômica. A mineração de ferro assumiu papel central, inserindo a cidade no chamado Quadrilátero Ferrífero, uma das principais regiões mineradoras do mundo.

Essa atividade passou a sustentar a maior parte da economia local. A cidade cresceu em torno das operações minerárias e desenvolveu uma dependência estrutural do setor. Ao mesmo tempo, o patrimônio histórico e cultural impulsionou o turismo, criando uma segunda base econômica.

Atualmente, Mariana possui cerca de 61 mil habitantes e mantém forte vínculo com a mineração, que continua sendo responsável por grande parte da arrecadação municipal e da geração de empregos .

Patrimônio histórico e identidade urbana

Um dos aspectos mais marcantes de Mariana é a preservação de seu conjunto arquitetônico. Diferentemente de outras cidades coloniais, seu traçado urbano foi planejado. O projeto, elaborado no século XVIII, estabeleceu ruas organizadas e praças estruturadas.

A Praça Minas Gerais concentra alguns dos principais edifícios históricos. A Igreja de São Francisco de Assis, a Igreja do Carmo e a Casa de Câmara e Cadeia representam diferentes dimensões da vida colonial.

A Catedral da Sé abriga o órgão Arp Schnitger, considerado um dos mais importantes do mundo. O instrumento, produzido na Alemanha no início do século XVIII, é único fora da Europa.

A cidade também abriga museus e instituições culturais que preservam documentos, obras de arte e registros históricos. Esse conjunto consolidou Mariana como um dos principais destinos do turismo histórico no Brasil .

O rompimento da barragem de Fundão e a ruptura da história

Rio Doce foi diretamente impactado pela lama liberada no rompimento da barragem
— Crédito: biblioteca de imagens do Canva

No dia 5 de novembro de 2015, Mariana deixou de ser apenas referência histórica para se tornar símbolo de uma crise ambiental de grande escala. A barragem de Fundão, operada pela Samarco, rompeu-se liberando cerca de 50 a 60 milhões de metros cúbicos de rejeitos de mineração .

A lama atingiu rapidamente comunidades rurais, especialmente Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo. Casas, escolas e estruturas públicas foram destruídas. Dezenove pessoas morreram e milhares ficaram desabrigadas .

A ausência de sistemas de alerta eficazes agravou o impacto. Muitos moradores só foram avisados por telefone ou por iniciativas individuais. A destruição ocorreu em questão de minutos.

A dimensão ambiental do desastre

Após atingir as comunidades, a lama percorreu rios da região até alcançar o Rio Doce, avançando por centenas de quilômetros até o oceano Atlântico. O impacto atingiu dois estados e dezenas de municípios .

O desastre foi classificado como o maior da história brasileira envolvendo barragens de rejeitos e um dos maiores do mundo . A contaminação comprometeu a qualidade da água, afetou a fauna e alterou ecossistemas inteiros.

Estudos apontam que os efeitos ambientais podem durar décadas. A recuperação completa das áreas atingidas ainda é incerta.

Dimensão do impactoDado
Mortes confirmadas19
Volume de rejeitosaté 60 milhões m³
Rios atingidosmais de 600 km
Municípios afetadosdezenas em MG e ES
Pessoas impactadasmilhões
Casas destruídascentenas

O impacto social e o deslocamento das comunidades

O rompimento da barragem não provocou apenas danos ambientais. Ele desestruturou comunidades inteiras. Em Bento Rodrigues, cerca de 90% das casas foram destruídas, e os moradores foram obrigados a deixar o território onde viviam há gerações .

O deslocamento forçado alterou vínculos sociais, modos de vida e relações comunitárias. A reconstrução das áreas atingidas se arrastou por anos, gerando críticas sobre a lentidão dos processos.

Além disso, populações ribeirinhas e indígenas foram diretamente afetadas pela contaminação dos rios. A interrupção da pesca e do abastecimento de água impactou a subsistência dessas comunidades.

O caminho jurídico e as disputas por reparação

Após o desastre, foram iniciados processos judiciais e negociações envolvendo empresas, governos e órgãos públicos. Em 2016, foi criada a Fundação Renova, responsável por coordenar ações de reparação, incluindo indenizações e recuperação ambiental .

Ao longo dos anos, a atuação da fundação foi alvo de críticas relacionadas à demora nos processos e à falta de transparência. O sistema de indenizações e reassentamentos foi considerado insuficiente por parte dos atingidos.

Na esfera criminal, os processos se estenderam por anos. Em 2024, os réus foram absolvidos, o que gerou repercussão e questionamentos sobre responsabilização.

Paralelamente, acordos bilionários foram firmados para compensar os danos. Esses acordos envolvem pagamentos ao poder público, investimentos em recuperação ambiental e indenizações individuais.

A retomada da mineração e a permanência da dependência econômica

Apesar do desastre, a mineração continua sendo o principal eixo econômico de Mariana. A Samarco retomou suas operações em 2020, após anos de paralisação.

A atividade segue sendo fundamental para a arrecadação municipal e para o mercado de trabalho. Esse cenário evidencia uma contradição: a mesma atividade que provocou o desastre continua sendo a base da economia local.

Essa dependência dificulta a diversificação econômica. Embora o turismo e a cultura tenham potencial, ainda não conseguem substituir o peso da mineração.

O presente de Mariana entre reconstrução e incerteza

Hoje, Mariana vive um processo contínuo de reconstrução. Distritos atingidos estão sendo reerguidos, mas enfrentam desafios relacionados à adaptação das comunidades e à qualidade das novas estruturas.

Ao mesmo tempo, a cidade busca fortalecer o turismo e preservar seu patrimônio histórico. A valorização cultural aparece como alternativa, mas ainda limitada frente à estrutura econômica existente.

Entre os principais desafios atuais estão:

  • recuperação ambiental de áreas atingidas
  • reconstrução de comunidades deslocadas
  • redução da dependência econômica da mineração
  • enfrentamento das desigualdades sociais

Mariana como síntese de contradições brasileiras

A história de Mariana reúne diferentes dimensões do Brasil. Representa o início da exploração mineral no interior, a consolidação de instituições coloniais e a formação de um patrimônio cultural relevante.

Ao mesmo tempo, evidencia os limites de um modelo econômico baseado na exploração intensiva de recursos naturais. O rompimento da barragem de Fundão expôs fragilidades estruturais e abriu um debate sobre responsabilidade, regulação e sustentabilidade.

Hoje, Mariana não é apenas um marco do passado. É também um território em disputa, onde memória, economia e reconstrução se entrelaçam. O desafio que se impõe não é apenas recuperar o que foi perdido, mas redefinir os caminhos de desenvolvimento para que a história da cidade não seja novamente atravessada por tragédias de mesma natureza.